Atualização sobre o Fenoxietanol

O 2-fenoxietanol (INCI: phenoxyethanol) é um composto químico orgânico, normalmente apresentado em solução aquosa incolor dotada de um leve odor floral, de modo que também é conhecido como éter de rosas. O fenoxietanol pode ser encontrado na natureza, por exemplo no chá verde ou na chicória, mas sua versão comercial é primordialmente sintética. Além de ser utilizado em produtos cosméticos, o fenoxietanol possui diversas aplicações funcionais, isto é, pode ser empregado como um agente anestésico para facilitar o manejo e reduzir o estresse de peixes, ou como um meio alternativo para embalsamar cadáveres que são utilizados nas aulas de anatomia. As principais diferenças entre o fenoxietanol utilizado em produtos cosméticos e o que é utilizado para outras finalidades residem no grau de pureza e na concentração.

Em geral, nos produtos cosméticos, o fenoxietanol ora assume a função de conservante, ora assume a função de solvente. Como solvente, o fenoxietanol pode ser encontrado em perfumes ou similares, devido a sua característica aromática e seu bom comportamento como uma nota de fundo, ou seja, uma molécula “fixadora” de fragrâncias (reveja aqui que fixador de perfume é um termo errôneo). Já como conservante, em que a concentração máxima permitida hoje no Brasil, na Europa e no Japão é de 1,0%, o fenoxietanol atua inibindo a síntese do DNA ou tornando a parede da célula microbiana mais permeável aos íons de potássio. Além disso, o fenoxietanol pode ser empregado como conservante nos mais diversos tipos de produtos para os cuidados pessoais e passou a ser mais frequentemente utilizado em função da polêmica em volta dos parabenos (leia mais aqui e aqui!), ocasião em que o fenoxietanol se tornou uma alternativa promissora.

As principais vantagens do fenoxietanol enquanto conservante são as seguintes:

  1. ele não pertence à família dos injustiçados parabenos;
  2. ele não pertence à família dos conservantes doadores de formol (como é o caso da imidazolidinil ureia)
  3. ele não pertence à família dos conservantes derivados da isotiazolinona;
  4. ele não é um conservante halogenado (como o bronopol ou a clorfenesina);
  5. ele é facilmente solúvel em água e pode inclusive ser utilizado para solubilizar outros conservantes;
  6. ele possui um amplo espectro de ação antimicrobiana, atuando contra fungos e bactérias gram-positivas e gram-negativas.

No entanto, apesar de seu amplo espectro, o fenoxietanol é considerado um antimicrobiano fraco e por isso precisa ser utilizado em combinação com outros conservantes ou em concentrações mais elevadas (de até 1,0%), ao passo que os parabenos, por exemplo, são empregados na ordem de 0,01% a 0,4%. Além disso, o fenoxietanol é considerado seguro para os humanos nas concentrações recomendadas, pois ao contrário das isotiazolinonas, em que se reconhece alguns casos de dermatite, ainda não há reações indesejadas comprovadamente atribuídas ao fenoxietanol utilizado nas concentrações permitidas. Na verdade, de acordo com o fabricante Sharon Laboratories, o fenoxietanol pode inclusive ser utilizado em produtos para bebês. Outro fator que reforça a segurança do fenoxietanol é que ele compõe a lista de conservantes permitidos em produtos sujeitos à certificação orgânica pela Soil Association.

No entanto, o fenoxietanol já foi objeto de diversas polêmicas. A exposição a concentrações inadequadas de fenoxietanol pode ter um efeito depressor sobre o sistema nervoso central e causar vômitos e diarréia. Em 2008, nos EUA, a Food and Drug Administration (FDA) publicou uma nota recomendando aos consumidores que não adquirissem o produto Mommy’s Bliss Niple Cream, pois o mesmo continha clorfenesina e fenoxietanol, sendo que ambos possuiam efeito depressor sobre o sistema nervoso central das crianças (veja a nota aqui!). No entanto, deve-se ressaltar que o produto era destinado à aplicação nos seios, e que seu rótulo afirmava que não era necessário remover o produto antes de amamentar. Isto é, o risco consistia no fato dos bebês ingerirem o fenoxietanol durante a amamentação; e produtos cosméticos obviamente não devem ser ingeridos, especialmente por crianças. Já na Europa, há alguns anos, levantou-se a suspeita de que o fenoxietanol entraria na lista de ingredientes proibidos, o que até agora não aconteceu. E no Brasil, foi sugerido que o fenoxietanol fosse capaz de alisar os cabelos, mas esta atividade nunca foi comprovada e não é autorizada pela ANVISA (leia mais aqui!). Na verdade, os estudos disponíveis na literatura que acusam alguma toxicidade atribuída ao fenoxietanol, em geral, foram realizados com procedimentos inapropriados ou com concentrações de fenoxietanol muito acima dos limites permitidos em produtos cosméticos. Até o momento, não é do conhecimento do Cosmética em Foco qualquer estudo científico que tenha conclusivamente demonstrado que o fenoxietanol utilizado na concentração de até 1,0% represente um risco para os seres humanos.

Opinião do autor: A má condução ou a má interpretação da pesquisa científica têm gerado diversas polêmicas na esfera dos conservantes. De um lado, quando infundadas, essas polêmicas dificultam o trabalho do formulador que se vê obrigado a utilizar conservantes alternativos dos quais pouco se sabe a respeito e que, eventualmente, podem se mostrar mais graves que os bem-estabelecidos parabenos e fenoxietanol. Por outro lado, alguns conseguem encontrar oportunidades diantes dessas crises e incentivar o uso de cosméticos que não possuem os ingredientes polêmicos, ou mesmo de cosméticos ditos preservative-free, isto é, sem conservantes. O fato é que um produto cosmético deve garantir a sua segurança microbiológica, e que desenvolver produtos sem conservantes implica em um custo elevado diretamente repassado ao consumidor. Em outras palavras, as alternativas aos conservantes antimicrobianos existem e não são tão limitadas. Cabe ao consumidor colocar na balança as suas prioridades e fazer a sua escolha:

  • É possível adquirir produtos cosméticos conservados com ingredientes tradicionais e para os quais não se comprovou reações indesejadas nas concentrações indicadas há mais de 50 anos de estudos.
  • É possível adquirir produtos cosméticos conservados com ingredientes recém-lançados, para os quais também não se comprovou reações indesejadas nas concentrações indicadas, embora tais conservantes sejam relativamente menos estudados.
  • É possível adquirir produtos cosméticos fabricados em condições assépticas ou fabricados de modo a reduzir a capacidade de proliferação microbiana, dispensando-se o uso de conservantes, embora a disponibilidade desses produtos seja menor.

O mais importante, no entanto, é consumir de forma consciente e conhecer o que se está levando pra casa. Desenvolva o hábito de verificar a lista de ingredientes e de se informar sobre eles com um profissional de saúde. Seja crítico com as informações que encontrar pela internet.